Boaventura de Sousa Santos faz conferência na Cres 2018 e reafirma importância das universidades

Para cientista social, educação superior deve resistir as investidas neoliberais

O Iesalc, que é o Instituto Internacional de Educação Superior para a América Latina e o Caribe, uma das agências da Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, em parceria com entidades ligadas à Educação Superior, a cada dez anos realiza a Conferência Regional da Educação Superior para a América Latina e o Caribe. Neste ano, a Cres chegou a sua terceira edição e coincidiu com os cem anos da Reforma Universitária de Córdoba – movimento fundamentalmente estudantil que influenciou a reorganização de todo o sistema de Educação Superior da América Latina e do Caribe. Também realizada na cidade argentina de Córdoba, a Cres 2018 reafirmou os ideais de 1918 e o compromisso das universidades com a transformação social.

Reflexões apresentadas por Boaventura de Sousa Santos traçaram paralelos entre 1918, 1968 e 2018 (Foto: Ariane Pereira)

Mesma perspectiva adotada pelo cientista social português Boaventura de Sousa Santos na conferência inaugural da Conferência: “As dores que restam são as liberdades que faltam – para continuar e aprofundar o Manifesto de 1918”. A Reforma Universitária de Córdoba defendia a autonomia universitária, a democratização das instituições públicas e a desvinculação das ações latinas dos interesses norte-americanos. Boaventura de Sousa Santos assinalou que ainda hoje é preciso resistir, e de forma integrada, ao que ele chamou de monstro de três cabeças: o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado.

Hoje, temos inimigos internos e para nos defendermos precisamos ter uma concepção diferente do conhecimento e há muitos professores que ficaram no tempo, não evoluíram, não leram e não se deram conta que o mundo hoje é distinto e precisamos ter outra articulação. Também é distinto o fato de que as universidades hoje estão sem aliados. É muito fácil atacar as universidades em qualquer país. Antes, ninguém tocava nas universidades. Basta ver que um professor catedrático ganhava tanto quanto um general ou como um juiz do Supremo Tribunal. Veja o que acontece hoje nos nossos países. Houve uma mudança extraordinária e, portanto, o inimigo é mais forte porque, nessa altura, esse inimigo tinha que sempre ter em conta que havia muita gente nas universidades que não acreditava que o futuro era apenas capitalista, podia haver um futuro socialista. Hoje, a ideia da alternativa está um pouco em crise. Portanto, há inimigos externos muito fortes e há alguns inimigos internos que também é preciso combater”, afirma.

Resistência deve ser integrada contra o monstro de três cabeças: o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado (Foto: Ariane Pereira)

O conferencista ainda criticou a mercantilização da educação e disse ser necessária a refundação da universidade no sentido de aprofundar a democratização do ensino superior. Como ação de resistência, Boaventura sugeriu as parcerias e o apoio sul-sul – isto é, entre instituições de ensino superior da região.

O ataque neoliberal não é um ataque a uma universidade. Os cortes orçamentários estão a ser distribuídos por todas as universidades e em todos os continentes. Aqui no continente latino-americano a resistência tem que ser articulada. Como se pode resistir? Ela tem que ser por um lado defensiva, porque há serviços que serão cada vez mais difíceis de realizar e solidariamente nos organizarmos, até no compartilhamento de equipamentos – nós podemos, eventualmente, ter a possibilidade de continuarmos nossa investigação com equipamentos partilhados, por exemplo. Também as universidades estão a despedir muita gente, muitas vezes, nós também podemos ter solidariedade com esses professores que circulam de uma universidade para outra e que – muitas vezes conhecidos dos estudantes porque leem seus livros – e que podem vir a preencher as deficiências das universidades. Penso que há muitas maneiras através das quais, toda essa aliança sul-sul pode fortalecer as universidades. Sempre que um professor é perseguido – e, nesse momento, há vários professores perseguidos no Brasil, eu tenho um pós-doutorando que, nesse momento, está a ser perseguido pelos agricultores por causa de uma questão dos agrotóxicos -, quando um pesquisador, um investigador é perseguido, se nós tivermos uma rede sul-sul, imediatamente, podemos organizar uma rede de solidariedade. Há, portanto, toda uma série de medidas que eu penso que podem ser operacionalizadas dessa maneira”, detalha Boaventura de Sousa Santos.

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